Retrospectiva Cervejeira 2018: acontecimentos importantes no mercado brasileiro de cervejas


Mercado

          Em 2018 o mercado cervejeiro cresceu vertiginosamente. Entre dezembro de 2017 e setembro de 2018, até onde temos dados mais recentes fornecidos pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), o setor teve um aumento de 23% em número de cervejarias, passando de 679 para 835 fábricas em operação no Brasil. São 156 cervejarias a mais, totalizando 169.681 rótulos registrados.

          Este número se refere apenas às cervejarias registradas e com fábrica própria, não considerando as ciganas (legalmente constituídas, mas com produção em terceiras). Portanto, o número de marcas cervejeiras é bem maior, porém o mercado ainda não contabilizou e divulgou esses dados.

          Analisando o gráfico abaixo, percebe-se que é um mercado ainda muito recente no Brasil, que começou a ter crescimento expressivo a partir de 2010. Alguns fatores contribuíram para esse aumento mais acelerado de cervejarias em 2018, como maior maturidade do mercado, inclusão das micro e pequenas cervejarias no Simples Nacional e liberação de produção em diversas cidades.

Fonte: MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)


          As regiões Sul e Sudeste concentram maior número de cervejarias, representando juntas mais de 80% do país. Dentre os estados que mais cresceram no ano, Minas Gerais se destaca com 28% a mais de fábricas cervejeiras. A tabela abaixo representa o aumento de cervejarias dentre os estados mais representativos. Confira o levantamento completo para ver os demais estados, além da densidade cervejeira - relação entre número de habitantes por cervejaria.

Fonte: MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)


          O Brasil está em 3º lugar no ranking mundial de produção de cerveja, ficando atrás apenas da China e Estados Unidos. E a cerveja é a bebida alcoólica mais popular do mundo, sendo a 3ª mais consumida quando comparado com as sem álcool - só perde para a água e o café. Em número de cervejarias estamos em 4º lugar em relação aos outros países, tendo em nossa frente os EUA com 6.372, Reino Unido com 1.994 e Alemanha com 1.350.

          Em relação à inovação, o Brasil já alcançou 2º lugar no ranking global, representando 9% dos lançamentos. Neste quesito, estamos à frente dos países das escolas cervejeiras do velho mundo (Alemanha, Inglaterra e Bélgica), que se mantiveram tradicionais.


Fonte: Catalisi | Dados: Mintel


          Segundo Jonny Forsyth, diretor da agência global de inteligência de mercado Mintel, uma das razões do Brasil estar se destacando em inovação nas cervejas artesanais é o fato deste mercado ter sido tão homogêneo por muitos anos. Estamos passando pelo processo da Revolução Cervejeira que os EUA viveu nos anos 1980/90, em condições semelhantes.

          No mercado de cervejas artesanais há pouca fidelidade do consumidor - queremos sempre degustar cervejas diferentes em lugares diferentes, não é de costume repetirmos rótulos com frequência. Portanto, estar sempre lançando novidades é importante para fazer com que cervejeiros que já conhecem determinada marca voltem a consumi-la. 

Fonte: Sebrae-SC


          Em relatório publicado em outubro pelo Sebrae-SC, elaborado a partir de pesquisa com cervejarias de Santa Catarina, foi indicado que a maior dificuldade é a parte da Comercialização, o que inclui os setores de Marketing, Publicidade e Vendas. Os demais pontos críticos são a gestão de pessoas e a gestão financeira. Ou seja, produzir cervejas boas já não é um problema, tendo em vista que o brasileiro tem investido bastante em educação cervejeira e controle de produção. Mas entender sobre o mercado e as melhores ferramentas para se destacar e administrar o negócio tem sido uma dificuldade da maioria - o que destaca a importância do curso Marketing de Cerveja.

          Falando em profissionalização, o setor de cervejas artesanais gerou muitos empregos. Só em 2018 foram contratados 1.757 trabalhadores formais em pequenas cervejarias (com menos de 99 funcionários). A contribuição sócio-econômica das pequenas cervejarias independentes é incontestável, segundo Carlo Lapolli, presidente da ABRACERVA (Associação Brasileira da Cerveja Artesanal).

Fonte: ABRACERVA


Tendências

          O nicho de cervejas artesanais está longe de ser uma moda gastronômica. É um mercado consolidado, que vem crescendo e se profissionalizando cada vez mais. Mas como todo segmento, a cada ano surgem novas tendências de estilos, tecnologia de produção, modelos de negócio, comportamento do consumidor e comunicação. As principais foram:

  • Sours, pegando a onda da Catharina Sour, que surgiu em 2017. Mas outros estilos ácidos também foram bastante produzidos e consumidos, como Flanders Red Ale, Sour Ale e Gose.
Oceânica Wild Ruby

  • Dentre as cervejas mais amargas, Brut IPA foi a IPA do ano, tomando o destaque da New England IPA. A West Cost IPA também foi mais disseminada, além de adição de frutas na American e NE IPA.
Bodebrown Brut IPA Galaxy

  • A RIS (Russian Imperial Stout), que ficou mais popular ano passado - seja clássica, com frutas ou envelhecida em madeira, neste ano reapareceu com adição de Maple (xarope de bordo), muito usado nos Estados Unidos e Canadá - o que reforça a influência da escola Americana no mercado brasileiro.
Dádiva Black Mist

  • Até cerveja com glitter vimos em 2018, mas no Brasil não teve o mesmo impacto que nos EUA.
Wäls Sirius

  • Lúpulo brasileiro passa a ser uma realidade, com desenvolvimento de estudo e produção em diversas cidades. Ainda estamos longe da autossuficiência, pois um dos fatores que dificulta a produção no país é o clima. Mas atualmente existem mais de 30 produtores investindo em experimentos e adequando a qualidade para produção cervejeira, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo). A região Sul lidera, mas também há produção nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. O Cascade RIOC-001, produzido na Rio Claro Lúpulos - que conseguiu investimento no Shark Tank Brasil, é o primeiro a ser comercializado.
Fonte: Aprolúpulo

  • As latas estão cada vez mais presentes, trazendo diversos benefícios - são 100% recicláveis, protegem a cerveja da incidência da luz (que gera um off-flavor chamado lightstruck, conferindo aroma desagradável à cerveja), são empilháveis e mais leves, o que reduz o preço do frete e facilita a entrada em outras cidades. Além de ser mais barata, já que o alumínio custa menos que o vidro - o que encarece é o envase terceirizado caso a fábrica não possua envasadora for própria. Cervejarias conceituadas como a Bierland e Tupiniquim migraram das garrafas para as latas, enquanto muitas outras apostaram em ao menos um lançamento nessa versão. Foi o caso da Praya, que produz apenas um rótulo (uma Witbier) e já oferecia em chope, garrafa de 600ml e long neck, agora aposta também na latinha de 269ml.
Imagem: Divulgação

  • A cultura do growler cresceu e hoje é comum ver bares em diferentes regiões com preço diferenciado para venda de chope por litro.
Goose Creek Growler Co.

Foto: Eduardo Almeida

  • Mais brewpubs e bares de cervejarias abriram em 2018. Ciganas fizeram crowdfunding para arrecadar recursos e abrir fábrica própria, como a 3 Cariocas e a Brewlab. A Leuven, que já tinha fábrica, utilizou para expandir suas instalações e aumentar a capacidade de produção.
Brewpub da Everbrew, inaugurado em novembro | Foto: Estadão

  • Cervejarias começam a investir em destilados, para aproveitamento dos resíduos e expansão do market share. A Backer foi pioneira, inaugurando sua própria destilaria com produção de whisky single malt e gin com lúpulo.
Destilaria 3 Lobos | Foto: Divulgação


Notícias Relevantes

(abrangência nacional, por ordem cronológica)


Janeiro
  • O ano começou com a possibilidade de inclusão de micro e pequenas cervejarias no regime do Simples Nacional, desburocratizando questões tributárias que envolvem a comercialização de cerveja. [Confira o que mudou]

Fevereiro
  • ABRACERVA lança selo Cervejaria Independente Brasileira, a fim de diferenciar ainda mais as cervejarias artesanais - que não possuem ligação com grupos econômicos multinacionais. [Saiba mais]

Março
  • Niterói Cervejeiro: fabricação de cerveja artesanal foi liberada no município fluminense. [Saiba mais]

Abril
  • Polo Cervejeiro de Ribeirão Preto é reconhecido como Arranjo Produtivo Local. A medida visa estimular o acesso de microcervejarias a importantes políticas públicas, linhas de crédito, redução de alíquotas, além de incentivos à estrutura e promoção do polo cervejeiro. [Saiba mais]
Maio
  • São Paulo recebe pela 1ª vez o festival Mondial de La Bière, que passa a fazer parte do calendário paulistano. [Saiba mais]

Junho

  • Bares da Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro, passam a fechar mais cedo pelo aumento da violência. [Saiba mais]

Julho
  • Catharina Sour, cerveja à base do estilo Berliner Weisse com adição de frutas, é catalogado (ainda de forma provisória) no guia de estilos BJCP - Beer Judge Cerfication Program, se tornando o 1º estilo brasileiro de cerveja. [Saiba mais]

Agosto
  • Foi liberada a atividade de brewpubs, nano e micro cervejarias no município do Rio de Janeiro, com o deferimento do Projeto de Lei Complementar n° 76/2018. [Confira a legislação]

  • Heineken estuda fechar as duas fábricas de Pernambuco, já que a operação no Estado acumulou no último ano um prejuízo de R$ 90 milhões. É uma medida extrema que a companhia prefere não tomar, mas poria fim a uma perda de R$ 10 milhões por mês. Atualmente, as outras 13 fábricas da Heineken no Brasil não teriam condições de suprir a produção dessas duas unidades. [Saiba mais]

  • A 9ª edição do concurso Eisenbahn Mestre Cervejeiro, que ano passado virou um reality show, foi ao ar pela 2ª vez em rede nacional. Dessa vez, foi exibido no Multishow e na Globo, ganhando espaço na TV aberta. [Saiba mais]

Setembro
  • Assim como no Rio, lei autoriza a produção de cerveja artesanal fora do complexo industrial de BH, permitindo a instalação de micro cervejarias e brewpubs na capital mineira. [Saiba mais]

  • Ambev investe mais na educação do consumidor, com a campanha Brahma Responde, oferecendo curso gratuito de degustação e lançando a Skol Hops, com campanha que despertou a curiosidade do público de massa e fez o lúpulo entrar para o 3º lugar no ranking de buscas no Google. [Saiba mais]
Outubro
  • Instrução normativa do MAPA estabelece a obrigatoriedade de constar todos os ingredientes nos rótulos das cervejas, substituindo as expressões genéricas “cereais não malteados ou maltados” pela especificação dos nomes dos cereais e matérias-primas efetivamente utilizados como adjunto cervejeiro. [Saiba mais]

  • Copa Cerveja Brasil, o primeiro concurso exclusivo para cervejarias independentes, tem sua 1ª edição com 590 concorrentes e 67 premiações. A Bierbaum, de Treze Tílias - SC, foi eleita a microcervejaria do ano. [Saiba mais

Novembro
  • Ambev perdeu mais de R$ 80 bilhões em valor de mercado em 2018. Segundo o controlador Jorge Lemann, mudança nos hábitos de consumo provocou uma disruptura nesse negócio. “O mercado ganhou novas marcas, novos sistemas de distribuição e vários produtos artesanais conquistaram os bebedores de cerveja”, argumenta. Segundo a analista Laís Soares, as classes A e B estão dispostas a comprar cervejas de maior preço, mas de melhor qualidade, fazendo o segmento de microcervejarias representar atualmente cerca de 5% do mercado. Enquanto isso, o cliente da classe C demonstra interesse em consumir marcas mais conhecidas, mas sofre com a redução do seu poder de compra. [Saiba mais]

  • Radical Brewing, do Randy Mosher, ganha versão brasileira. O livro foi traduzido e publicado pela Editora Krater e teve lançamento em São Paulo. [Saiba mais]

  • John Palmer, um dos gurus dos cervejeiros caseiros e autor de livros clássicos como “How to Brew” e “Brewing Classic Styles”, veio ao Brasil como palestrante e jurado da Copa da Cerveja POA e também palestrou no Rio de Janeiro em workshop produzido pelas cervejarias OverHop e Mistura Clássica. [Saiba mais]

  • Brassaria Ampolis - a "cerveja do Mussum" - passa a fazer parte do Grupo Petrópolis, que aumentou seu portfólio de cervejas premium. A cerveja ganha maior espaço nos supermercados e faz propaganda em TV aberta. [Saiba mais]

Dezembro
  • Rio Claro Lúpulos, fabricante de lúpulo nacional, consegue investimento de R$ 500 mil no Shark Tank Brasil. [Saiba mais]

  • Osmar Terra, futuro ministro da Cidadania, propõe reduzir o horário de venda de bebidas alcoólicas em áreas mais violentas do Brasil. [Saiba mais]

Considerações Finais

          Foi um ano com altos e baixos, mas o saldo foi positivo para as pequenas cervejarias. Porém, com o crescimento do mercado, aumentou também a concorrência e a necessidade de se posicionar, planejar e fazer uma boa gestão. Para isso, é muito importante investir em conhecimento e profissionais qualificados, que entendam tanto sobre cervejas artesanais, quanto sobre marketing.

          Em 2019 a expectativa é de um crescimento menos acelerado em quantidade, mas com aumento de qualidade das receitas, rótulos, comunicação e administração dos negócios cervejeiros. Essa maturidade do mercado também se dará pela educação do consumidor leigo, que em parte, a aparição de temas relacionados à cerveja na mídia de massa e os grandes festivais cervejeiros têm contribuído bastante.

          Desejamos a todos um Feliz Ano Novo! No próximo post iremos listar os principais eventos cervejeiros de 2019. Siga o Marketing Cervejeiro no Blog, Instagram e Facebook para acompanhar as novidades. :)




Análise e Texto por Érica Barbosa - Fundadora do Marketing Cervejeiro

Profissional de Marketing pós-graduada em Marketing Digital pela ESPM, com formação executiva em Gestão Estratégica da Inovação pela FGV e extensão em Jornalismo Gastronômico pela FACHA. Também é Sommelière de Cervejas pela Escola Superior de Cerveja e Malte/Doemens, Mestre em Estilos pelo Instituto da Cerveja e Bartender. Foi Supervisora de Marketing na maior distribuidora de cervejas especiais do Rio e Gestora de Inbound Marketing do e-commerce The Beer Planet.


Retrospectiva Cervejeira 2018: acontecimentos importantes no mercado brasileiro de cervejas Retrospectiva Cervejeira 2018: acontecimentos importantes no mercado brasileiro de cervejas Reviewed by Marketing Cervejeiro on dezembro 31, 2018 Rating: 5

2 comentários:

  1. Muito boa a retrospectiva. Para quem estuda e trabalha com cervejas, é importante demais termos aglomerados de notícias como esta, bem feita. Obrigada =) saúde e muito trabalho em 2019!

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    1. Obrigada, Bia! Que nessa ano a gente consiga escrever bastante sobre cerveja. <3

      - Érica Barbosa

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